Talvez

29.11.08


Há coisa que fazem sonhar
outras que a sonhar fazemos
bons sonhos todos queremos
não mais deles acordar.

Dormindo mesmo acordados
fomenta-mos pesadelos.
Pior mesmo é não tê-los
há de tudo para todos.

Mesmo julgando à partida
que os sonhos são irreais
vida sem els, jamais
é uma pedra consentida.

Realizar alguns, talvez
se eles forem pequenos
os grandes suscitam mêdos
pequenos, só um de cada vez.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:47

Pátria

29.11.08


Um pano a esvoaçar
com suas fraldas rasgadas
que a fogo foram forjadas
para ao vento se embalar.

Tinha as côres da nação
alinhadas em castelos
e com um fundo amarelo
sobre um verde de razão!

Um vasto lençol tingido
vermelho, sangue de tantos
e o suor de outros quantos
que a pulso fou erguido.

E esta nação secular
de outrora navegantes
tantos eram os mareantes
com ânsia de o mar sulcar!

A novas paragens rumou
e novos povos descobrir
fazer a nação progredir
e novos mundos fundou!...

Viu-se tão de repente
de seu espólio desgarrada
á lama da rua foi jogada
não mais foi como d'antes.

Ao saque, vieram muitos
tantos quantos lá couberam
e seus haveres lhe tomaram;
Tantos na gula eram afoitos.

Desprezada, ao abandono
sem poder largar um ai
viu-se tomada por generais
que a tornaram num adorno.

A esta paisagem fulcral
que já não teme quem a tome
onde o povo padeçe de fome
foi outrora, um imenso Portugal.

 

MC

 

publicado por mcarvas às 17:46

Dia intemporal

29.11.08


Uma chuva tão fria caía
tornando o ar tão soturno
das névoas saíu um huno
entre o louco e a euforia.

Prazer maior não tinha
que esta benção dos céus
orava a Deuses ateus
desfiando a ladaínha.

Sua essência, um mistério;
Dono de um porte altivo
que neste mundo está cativo
entre o demo e o etéreo.

Com suas crinas douradas
esvoaçando sobre o dorso
fúria de um guerreiro corso
com todo o pêlo eriçado.

Para as névoas ele voltou
p'ra seu refúgio sagrado
não é p'ra todos um agrado
o mito que dele se gerou!...

Meio homem e animal
só pode ser coisa do demo
parido sem qualquer termo
num dia intemporal.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:45

Azas da liberdade

28.11.08


Umas azas encomendei
p'ra no céu poder voar
abrir as portas a exultar
e para bem alto voei!...

Tão longe que não mais parei
para lá do firmamento!
Noutro mundo eu entrei
e, foi por lá que lavei

Os trapos do pensamento..

Mas as nódoas eram tão fortes
que eu não tive essa sorte
nem me livrei desse toemento.

Tão alvo era esse mundo
de uma leveza singular
Vi tanta donzela a saltar
pairando de vez em quando

Ao choro de uma criança
de toda a alma ali chegada
depois de uma vida acabada
vêm sem fé nem confiança.
De tanta alma penada
logo a minha foi escolhida
sem tempo p'ra despedida
neste mundo foi largada.
As minhas azas perdi
por esse cosmo sombrio
onde larguei também o brio
outras tão alvas não vi.
Não mais pude voar
tão grande o pêso da cruz
nem mais eu vi a luz
onde anseio em voltar!...

MC

 

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publicado por mcarvas às 23:34

Reflexo

28.11.08


Do reflexo da janela
de lá tirei a realidade
só lá ficou a verdade
desta saudade que embala!

Mas nesse espelho ficou
a pobreza de um destino
pois é assim que defino
quem por cá já penou.

Pênas, leva-as o vento
quando seu pêso é singelo
onde até um tenro prêlo
as consome sem intento.

Se duras, ficam vergadas...
quem as vier carregar
é uma vida a penar

sem não mais a largar.
Quan difícil acordar
tantos silêncios escondidos!...

MC

 

publicado por mcarvas às 23:33

Manjar

23.11.08


Perfeitamente alinhados
os vinhêdos prezenteiam
as paisagens que deslisam
por entre montes escondidos.

O outrora verde garrido
expôe um tosco escurecido
que até no tempo ficou perdido
o rebentar do gramido.

Os aromas que enchem o ar
adoçicando a vontade
sentam-se à mesa na herdade
salpicando o paladar.

Rebusca na eira o pardal
os grãos que sobejaram
seja de trigo ou centeio

com manjar se presenteia
são sobras do casario
sortes p'ra este natal!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:15

Graças

23.11.08


Toca o sino a repique
Há fogo, há fogo na eira...
Corre o povo na ladeira
antes que sem nada fique.

Ouve-se a ti rosa lina
berrar enchendo o canêco
mandando sentar o neto!
De todos a mais ladina.

Carrega o zé o tractor
a resmungar com a mulher
que reze quando poder
ao seu santo protector.

O fogo não quer cá rezas
ouve-se dizer ao fedelho;
Não metas cá o bedelho
que a avó não esta p'ra prozas!...

Foge dali muito corado
a vêr se a zanga passa
que a avó não achou graça
e o chinelo é pesado!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:14

Beijo de fugida

18.11.08


Deste-me um beijo de fugida
que em mim ficou marcado
teu rosto ficou corado
e minha face humedecida.

D'ele ficou teus saberes
que a todos eu sei de cor
guardei em mim teu odor
que pintei de várias côres.

Poses-te uma blusa nova
e uma saia de cetim
vestiste-te assim p'ra mim
para me por à prova.

Se não vi o teu agrado
desculpa não estar presente
não encaro a vida de frente
pois só vivo no passado.

MC

 

publicado por mcarvas às 19:04

Lavar o fado

17.11.08


Era uma casa amarela
escondida entre o arvorêdo
toda cheia de enrêdo
porticos, com janelas em vela!

Tinha um jardim bem tratado
pedrinhas rondavam os canteiros
dois bancos sob o pinheiro
e um baloiço pendurado.

Voava nele uma moçoila
com o cabelo esguedelhado
coberto de um tom dourado
cavalgando em sua cêla.

Soltava prozas ao vento
que soprava leve aragem
nem bulia a folhagem
não fosse perder o momento!

Que edílico quadro
perdido entre dois montes
gotejam folhas, jorram fontes
para lavar este meu fado.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:50

Lua suave

17.11.08


O tempo não mais apaga
o sentir de uma criança
nem a primavera cansa
um simples mimo que afaga!

Descalça lá ia e vinha
eras tú amora doce
por mais longe que fosse
sabia que sempre te tinha.

És minha lua suave
que me vem adormecer
pousando em mim seu olhar
faz a noite florescer!

Ai amores...quem os não teve...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:49

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