Amigo rasteiro

22.07.10

Sobe a encosta e a serra

essa luz que é um encanto

brilho de prata e de pranto

afagando nova era.

 

A serra com seus precalços

planta velhos degraus

que sob a força de um pau

crava no breu novos traços.

 

Sulcos profundos e esguios

que somados já são muitos

ardilosos quanto astutos

tornam o trilho inseguro.

 

Larga um pio a cotovia

soltando a gula do mocho

que do meio do restrolho

seu piar ele já seguia!

 

No trilho saltita um rato

desafiando o perigo

por força desse labrego

o mocho já forra o papo.

 

Agachada a cotovia

seu peito bate mui forte

pois dessa força de galope

de novo vai ver o dia.

 

O seu amigo rasteiro

não foi tanta a sua sorte

mesmo sendo tão forte

era tão menos ligeiro.

 

MC

publicado por mcarvas às 00:55

Funesto Abril

20.07.10

Acordou um dia o povo

a ver nascer o Abril

sem saber que era ardil

logo amassou o renovo...

 

Nesse dia tão funesto

engalanou-se de rosa

do cravo, não mais que prosa

resquíssios do pensamento!

 

No jugo que lhe cravaram

tres prêgos se sobressaiem

Ajuda, Belém e São Bento

p'ra ninguém ter o intento

de fugir ao julgamento.

 

Somam-se leis numa arena

de interesses alterneiros

que os sirva por inteiro

mesmo banidos da cena!...

 

Nos corredores de S. Bento

a ganância vai de pé

que o povo perdeu a fé

e a praga nunca vem só!

 

Em Belém, é já um facto

arrolha-se forte a quermesse

rebuscam fuçando benesses

e fausto seja seu prato.

 

Em leilão rolam os cargos

para honrar o compadrio

pois é já num redopio

que se partilham os tachos.

 

A honra morreu solteira

lá p'rá Ajuda alternadeira

que sob tanta abestinência

não mais cai da cadeira...

 

Honrarias, mais que muitas

engalanados de prôsa

pois que entre a seta e a rosa

lambuza-se tanto agiota!

 

P'ra deixar a coisa certa

à centros e trapos vermelhos

soltos ao vento, qual espelho

saltam juntos p'rá colecta!...

 

Peito inchado qual pavões

nessa tal de coisa pública

é so por mais uma rúbrica

e p'ró bolso uns milhões...

 

Quando algo há para assumir

a culpa morre solteira

é vê-los de qualquer maneira

por onde calha fugir.

 

Sucumbe de novo o povo

pela cobiça de alguns

pois pudor não têm nenhum

e o velho vinga de novo!

 

Triste a sina desse povo

ao se julgar de cuidado

sem sequer olhar p'ró lado

volta a elegê-los de novo.

 

Honram-no pois com o chicote

não vá andar à deriva

e para manter a coisa viva

aos comensais, o lingote!...

 

MC

 

 

 

publicado por mcarvas às 22:20

Alegoria

20.07.10

Cumpre o preceito da roda

da roda que agora estala

no nó do gôto se entala

a roda que enrola a vida.

 

Dias se alongam no tempo

consomem-se em cinzas por dentro

víl ardor que sulca o ventre

quan longo, curto, sedento!

 

Na alegoria de um caprixo

repulsa de um sonho na têmpora

rola por dentro e por fora

que o viver é vil caprixo.

 

O querer perdeu no dono

lá p'rás bandas do sei lá

não mais repousa por cá

quedou-se perdido no sonho.

 

Entôa baixo um refrão

que urge fazer seu caminho

tão ténue, tão baixinho

um sopro, sorriso, perdão!...

 

Rebentam as ondas do tempo

no paredão da agonia

que enquanto a vida fugia

secava em espuma por dentro.

 

Corre farta em míngua solta

num corrimão de anteparas

porquê? Não sei nada para

essa ruga tão afoita.

 

Solta-se enfim o cordame

que ampara o sol poente

por mais que pulse ou intente

brilha murcho a quem o clame.

 

Solta a prôa suas garras

acolhendo vento a jusante

rasgando sulcos a levante

gravando em carne as amarras!...

 

MC

publicado por mcarvas às 21:37

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