Ergue a voz o capitão
p'ró gageiro vasculhar
na imensidão do mar
a terra que o viu zarpar.

Só àgua meu capitão
e muito sol a secar
o vento sempre a soprar
uma grande solidão!

Onde as horas já são dias
as noites, de agonia
até de novo o sol raiar
neste chão d'àgua desmaiar

Vê de novo meu gageiro
por esse mar inteiro
um porto para ancorar
e terra firme pisar.

Abre-se o mar em dois
ao erguer-se um gigante
escurecendo num instante
o antes que perde depois

As armas, bravos soldados
brada o capitão em surdina
erguendo sua carabina
de olhos esbugalhados.

Na escuridão que se abateu
que era negra como bréu
soou no ar grande estrondo
que se ouviu no fim do mundo!...

Trovões a ribombar
e os canhões a trar
com um urro de pasmar
vê-se o gigante a tombar.

Tomou o mar de acalmia
e da morte que se temia
de novo rompeu o dia
nessa branda marezia.

Logo berrou o capitão
todo cheio de razão
p'ró gageiro lá no alto
que estremeceu de um salto.

Diz-me tú meu gageiro
que vês tú afinal?
que breve e bem brejeiro
mirando o mar inteiro
diz que de terra nem sinal!

Cem luas, já se passaram
e outras tantas se seguiram
as mínguas já se contavam
que até os cordales sumiam!...

Gravavam no mastro uma cruz
quando do alto, gaiteiro
berra breve o gageiro
que ao longe via luz...

De uma vastidão imensa
que abraçava toda a terra
que a tripulação já pensa

ser uma benção da cruz
e logo que soltaram ferro
chamaram-lhe de Vera Cruz!...

MC

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publicado por mcarvas às 22:24