invasão consentida

01.11.09


Galgados os calcanhares
e, de impermeável vestido
posava então embriagado cuscando por novos sabores!

De arrepio deu um salto
emmbrenhado na floresta
espreitava-se já uma aresta
logo investe já em riste!...

Numa guerra de sabores
e o calor a aumentar
num abraço de calcanhares
Vulgo ouvir suspirar...

Húmida está a floresta
e ele, então recolhido
que é em terreno florido
que se inícia a contenda.

Em movimentos circulares
e, um vai e vem bem profundo
que logo ao bater no fundo
quan breve lhe falta o ar!...

Contorcem-se já os prazeres
gemidos, enchem o ar
é um não mais querer parar
nem tampouco acometer!

E de um botão tão inchado
que ao roçá-lo já se sente
nada mais há que o tente
solta espasmos de afogado!...

MC

 

publicado por mcarvas às 15:45

Jornada

30.09.09


Subtíl era o momento
que tão breve se esfumou
quan n^gro o camafeu
que irrompeu do relento!...

Baba, soltava às postas
qual algazarra no inferno
que tomou vales e ermos
descarnando as encostas.

Como castigo dos céus
a chuva jorrou a rodos
que elevou côdeas e lodos
para alvitrar tanto réu!

Bem longe surgiu o sinal
de volumosa tormenta
que rasga e arrebenta
rumo ao juízo final.

Que venham então, levem tudo
de putrido e desenganos
consuma mêses e anos
nesse ar servo e mudo...

Caspem-se as unhas dos pés
na passada descontínua
e essa vida de míngua
lavada de lez a lez!

Venha esse sinal,
venha por fim afinal.

MC

 

música: j
publicado por mcarvas às 12:08

Fios de incerteza

06.09.09


Esvoaçam folhas pelo ar
acolhendo em si o outono
que chega com ares de dono
deixando a saudade a pairar.

Os ninhos então escondidos
expôem já seu rendilhado
tecido por bico prendado
de um tentilhão de sobrado.

Com os olhos aguçados
e uma poupa matizada
é delícia p'ra criançada
em seu vôo alvoraçado.

Tece fios de incerteza
bem no alto de um sobreiro
qual castelo erguida em eira
para lhe dar mais firmeza.

O vento então suave
arrasta já tanta incúria
que anda solta em fúria
regendoovôo da ave.

Nas artes da construção
é trabalhador exímio
desde a base até ao cimo
o negrilho, sua perdição.

E o outono que chegou
trazendo os ventos do norte
migram aves em magote
e o tentilhão cá ficou!...

MC

 

publicado por mcarvas às 03:49

Tristeza

01.07.09


Deambulando pelo bosque
um passarinho chorou!
Para o ramo em que pousou
a tristeza foi um choque!

Toda a àrvore esmoreceu
acolhendo o passarinho
embalando-o de mansinho
que tão breve adormeceu.

Seu sono que era tormenta
logo por todo o tomou
e o passarinho chorou
lágrimas do firmamento!...

Em todo o bosque entoou
um penar de pensamento
tornando seu o tormento
que o passarinho contou.

Na tristeza, ele se perdeu!
Até o dia escureceu
quando o passarinho tombou
que de tristeza morreu.

Jáz ao pé daquela àrvore
que sentida o acolheu
e a seus pés sepultou.

Em sua campa rasa semeou
a esperança que ele perdeu
para, que não mais alguém acorde
a tristeza que o tomou.

MC

 

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publicado por mcarvas às 22:25

Vera Cruz

01.07.09


Ergue a voz o capitão
p'ró gageiro vasculhar
na imensidão do mar
a terra que o viu zarpar.

Só àgua meu capitão
e muito sol a secar
o vento sempre a soprar
uma grande solidão!

Onde as horas já são dias
as noites, de agonia
até de novo o sol raiar
neste chão d'àgua desmaiar

Vê de novo meu gageiro
por esse mar inteiro
um porto para ancorar
e terra firme pisar.

Abre-se o mar em dois
ao erguer-se um gigante
escurecendo num instante
o antes que perde depois

As armas, bravos soldados
brada o capitão em surdina
erguendo sua carabina
de olhos esbugalhados.

Na escuridão que se abateu
que era negra como bréu
soou no ar grande estrondo
que se ouviu no fim do mundo!...

Trovões a ribombar
e os canhões a trar
com um urro de pasmar
vê-se o gigante a tombar.

Tomou o mar de acalmia
e da morte que se temia
de novo rompeu o dia
nessa branda marezia.

Logo berrou o capitão
todo cheio de razão
p'ró gageiro lá no alto
que estremeceu de um salto.

Diz-me tú meu gageiro
que vês tú afinal?
que breve e bem brejeiro
mirando o mar inteiro
diz que de terra nem sinal!

Cem luas, já se passaram
e outras tantas se seguiram
as mínguas já se contavam
que até os cordales sumiam!...

Gravavam no mastro uma cruz
quando do alto, gaiteiro
berra breve o gageiro
que ao longe via luz...

De uma vastidão imensa
que abraçava toda a terra
que a tripulação já pensa

ser uma benção da cruz
e logo que soltaram ferro
chamaram-lhe de Vera Cruz!...

MC

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publicado por mcarvas às 22:24

Trevas

04.06.09


Soltem, soltem os penhascos
abrindo as portas ao meio|
Neste ermo em permeio
urra na fossa o carrasco!...

Soltando brados, vocifera
dentes negros e afiados
vai moldando o cajado
que há-de sotar tal fera.

É neste chão putrido
que as osgas somem no pó
não há termo que de dó
some-se em vida perdido!

Que os negros trapos do dia
caçem e soltem as trevas
soêm tambores de guerra
consumidos na fadiga.

Pasmem-se, infios e ínfias
ao desfilarem nas trevas
que constrem novas heras
sob o jugo da quimera.

Que os cantos acordem todos
primeiro os mais sombrios
trazendo consigo testigos
e venham prenhes de castigos!

Que esses do desgarrado
soltem e atiçem os cães
para que não voltem sãos
venha, venha por fim o degrêdo!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:40

Meu porto te tome

23.05.09


No meu jardim acordou
logo ao raiar do dia
uma pétala de alegria
que da nebelina brotou!

Desabrocham malmequeres
rosas cravos e jasmins
é de uma ternura sem fim
poder sentir seus odôres.

Entre todos os canteiros
que enchem o ar de côres
somente um em primores
enche o espaço por inteiro.

Tantos foram meus amores
e outros sem tempo não vi
mas quando olhei p'ra ti
na face senti rubores...

Minha rosa d'eleição
por tí construí altares
para enxergar terra e mar
sentindo crescer a paixão.

Alberga em si a saudade
esse pronúncio complacente
qual fio prêso a pingente
que deixa o peito carente.

A alma fica dormente
ao albergar a distância
nesta força quanto alcança
a rota que está pendente.

Que a marezia se acalme
para enxugar esse chão
nos ventos polule a razão
quando em meu porto te tome.

Gravem as estrelas no céu
seu nome longo e rosado
doce botão tão prendado
nesse jardim que é só meu.

MC

 

publicado por mcarvas às 15:55

Dança de estrelas

23.05.09


A dança de estrelas parou
sob um manto denegrido
saltam fagulhas despidas
na noite que despontou!

Acordam sombras fugídias
que morfeu então largou
nestas, a noite pintou
tantas quantas viu perdidas...

Um sílvio no ar soou
crispando mêdos em franja
pelas bordas, já sobeja
tudo do nada sobrou.

Chovem fagulhas de um salto
abeirando-se da entrada
que é tão míngua a sacada
para acolher tanto pranto!

Planta mágua, planta ódio
planta rancor desmedido
de tão só ficou perdido
nas vertentes do abismo!...

A azáfama que se alonga
n'um sustenido menor
tão abrupta, tão maior
e sob o pranto, já se afoga!...

MC

 

publicado por mcarvas às 15:49

Começo

19.05.09


Que tombe então fulminado
o serviçal da mentira
o permíscuo som da lira
por sua corda esganado!

Que sinta o sabor da derrota
ao vêr a porta trancada
por onde só passa a verdade
não mais su língua afiada.

Pintem os céus de vermelho
para honrar esse dia
que o plácido fulgor da lira
seja serrado n'um celho.

Joguem-no pois ao precipício
que seja tão vasto, de mais
para que não volta mais
a dar começo ao início!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:52

Palavrinha

10.02.09


Tive-a pura nos lábios
ignorante dos sábios
fartos de tanto saber.
E as mãos do desalento
sentia ao longo do tempo
dentro de mim a crescer.

Proveia com alegria
envolto em sua magia
na doce, mais doque doce
vinda do mor adivinho
que punha o sapatinho
como se brinquedo fosse.

Sofria pela ausência
e por falta de evidência
peguei nela esquecido
que a palavrinha afinal
porque tudo, tudo vale
nunca perdeu o sentido!...

MC

 

publicado por mcarvas às 14:38

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