Triste fado

13.12.09


Irrompe um broto valente
e sua adaga bramia
no bafo que lhe fugia
silvo, soltava a serpente!

A massa amorfa rolava
a cada passada jogada
que a pedra da calçada
ao peso da besta vergava.

Das ventas que eram de ontem
quiçá..., da semana passada
escorriam sobras da contenda
por um escárnio de desdém.

Acólitos, pregadores do queixume
tresmalhavam-se pelas franjas
engalfinhados nas sombras
soltando fagulhas de lume.

Estas ódes de um Deus só
prenhes de impasse e fastio
não ousam pois,pisar o meio
e a podridão não vai só!...

Inflamados..., são os olhares
ao vêr desfilar tanta besta
que das vidas que lhes resta
consomem-se, e a seus pares.

Desfilam no tempo passado
num impasse, sem futuro
que os cravos desse chão duro
são manchas de triste fado.

MC
 

publicado por mcarvas às 17:38

Desejo

06.09.09


Cor de prata cintilante
que baila nas ondas do mar
Baila, baila sem parar
num abraço de amantes!

Traineira de vêla à banda 
es princezinha do mar
eleva-se a onda a bailar
por ti, oh linda ciranda!

Na proa, que a tudo alcança
vai um desjo a cantar
baila, baila sem parar
com encejo na bonança.

Bailam as franjas sem parar
rasgando as ondas do mar
e a traineirinha a navegar

Baila,baila sem parar
num bailado de encantar
com esperança em voltar!...

MC

 

publicado por mcarvas às 03:52

Festa d'eleição

04.06.09


Cesta de verga à cabeça
pela mão leva um petiz
saltitando vai feliz
no peito, medra a esperança.

Tanto botão a espreitar
no seio daquela cesta
leva flores para a festa
que está quase a começar!

É uma asáfama no largo
junto à capela maior
alva, que é um primor
no dia do redentor.

O sino então parado
sente o badalo a zurzir
a passarada a fugir
só para no meio do prado.

Já o sol tinha acordado
quando a fanfarra chegou
e logo o bombo soou
na calçada de empedrado.

Rua acima, rua abaixo
anda o mordomo ligeiro
este ano o Zé gaiteiro
tem de soltar mais um facho.

A criançada atrevida
vai puxando o pêlo à burra
que leva no lombo verdura
com ar de cumprometida.

Com os olhos ainda inchados
passa a Alice a remoer
ainda lhe deve doer
perder a noite de fados.

Cantadeira d'eleição
perdeu-se nos copos com o Zé
não mais se segurou de pé
foi uma complicação!...

O Zé um pouco atrevido
com os copos é bem mais
sem tempo p'ra soltar um ai
mete-lhe a mão no vestido.

Logo saltou confusão
ao se sentir apalpada
pegou-se tudo à paulada
no Zé estendeu a mão.

O tasqueiro não gostou
de vêr o negócio estragado
correu tudo à mocada
até a Alice larpou.

Toca a banda no coreto
e o madraço abre um olho
num banco cheio de folhos
estendeu o seu tapete.

A Rosa, moça prendada
que todo o largo enfeitou
ao vêr o que o madraço estragou
ferra-lhe grande estalada.

Homem de fala pausada
ao vêr sua filha danada
sem soltar uma só fala
assenta-lhe forte paulada.

No largo engalanado
tudo alinhado prás festas
foi porrada até ás tantas
ninguém foi posto de lado.

Gaitas com foles inchados
bombos e cacos de gesso
tudo serviu p'ra arremesso
no fim cabeças rachadas.

Festa de se tirar o chapeu
não há no lugar outra igual
ninguém levou por mal
tudo que nada perdeu!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:38

Fonte das sete bicas

19.05.09


Corre salta em alvoroço
deixando a saia rodar
roda, roda sem parar
roda singela sem esforço...

Na fonte das sete bicas
moças pousam o canêco
rodopiam no tamanco
sobre a calçada com socas!

Claras, escuras ou floridas
mas todas com saias de rendas
pequena que esconde a fenda
tem grande ância na partida.

Em seus decotes, ai as prendas
que a pele alva faz luzir
de coradas vão fugir
são todas moças prendadas!...

A fonte tem seus pecados
e outros tantos que ali deixam
pois com a mão que semeiam
também n'ela lavam o fado.

Com o canêco à cabeça
ladina, sobe a calçada
passa a rua em revoada
desde a fonte até à praça.

Ao passar junto à capela
leva a mão ao peito e reza
faz ao senhor a promessa
que expõe em sua preçe!

Sorri quando ali passa
com um ar envergonhado
e ao sorrir expõe a graça
deixando no ar sua traça...

Moça de folhos rendados
que força tens em teu traço
com tua trança e um laço
com duas pontas douradas.

Dás à praça tanta graça
que já não tem dia que passe
por mais que a hora se atrase
que não anceie teu abraço.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:51

Traços

17.01.09


Um embrulhado de formas
passeava-se pelos céus
sxpondo Deuses ateus
vociferando suas normas.

O vento que então soprava
tocando nuvens em rebanho
entre rasgos de clarões tamanhos
enquanto o trovão ribombava!

Pronto se vestiu de pranto
com um forte cheiro a cinza
que tomou toda a brisa
no poço do esquecimento.

Abrem-se então os portais
a chuva caíndo em bátegas
soltando fortes golfadas
era o vale dos vendavais!...

Onde não pousa terna ave
nem o mais ousado dos animais
intenta transpor seus portais
receios que em mente agrave.

Ou seja tomado em seus braços
este gosto a sal pimenta
que por todo o chão fermenta
quebrando todos os traços.

Nascem demónios putridos
que vertem névoas e sombras
sempre que mais um ser tomba
há festa e risos garridos.

É neste antrio de perdição
que os mêdos mais se afloram
por tudo, já fragas choram
tomando por sua a paixão.

Estes portais lizídios
que cativam a entrada
depois de linha quebrada
renascem filhos perdidos.

Vergados, o silêncio temem
o silêncio que então dorme
o silêncio que consome
é o princípio do fim!...

MC

 

publicado por mcarvas às 21:08

Fio dourado

05.01.09

 Pedi esta noite às estrelas   
Que tecessem um corpete  
E um florido ramalhete  
Para expores na lapela.   

P'ra me fezerem a vontade  
Teceram com fio dourado  
O mais belo bordado  
P'ra iluminar a saudade.   

Com as sobras desse fio  
Um ramalhete fizeram  
Que até os anjos choraram!...   

Tantas centelhas luziam  
E muitas mais se seguiam  
Em todas, só eu te via!...  

MC 

publicado por mcarvas às 23:30

Mar alto

06.12.08


Rema rema pescador
lança tuas rêdes ao mar
possa o mar abençoar
o condão de um sonhador.

Se o mar estiver de feição
não te canses de remar
e em àguas rasas largar
as rêdes da criação.

Que venham prênhes, tão cheias
de virtudes tão formosas
que tragam uma cesta de rosas
p'ra prosa de tia ceia.

Bafege-te o mar essa sorte
e a teus sonhar tomar
poder-te depois largar
nos braços de tua consorte.

Rema rema pescador
não te canses de remar
não te esqueças de alcançar
as sendas de um sonhador.

Rema rema, sonhador!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:54

Manjar

23.11.08


Perfeitamente alinhados
os vinhêdos prezenteiam
as paisagens que deslisam
por entre montes escondidos.

O outrora verde garrido
expôe um tosco escurecido
que até no tempo ficou perdido
o rebentar do gramido.

Os aromas que enchem o ar
adoçicando a vontade
sentam-se à mesa na herdade
salpicando o paladar.

Rebusca na eira o pardal
os grãos que sobejaram
seja de trigo ou centeio

com manjar se presenteia
são sobras do casario
sortes p'ra este natal!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:15

A vida no seu começo

06.11.08


Vagueio por entre a folhagem
trazida por ventos de outono
onde tudo é abandono
nas margens desta passagem.

O grilo que já não canta
já marcou o seu terreno
bem no cimo daquele ermo
que no inverno o sustenta.

O caminho lá vou seguindo
por entre fragas e penêdos.
Alguns acordam mêdos
nestes tempos de degrêdo.

Bem no cimo daquela escarpa
um barulho de espantar
vê-se uma fraga tão impar
com uma face lisa e limpa.

Abeiro-me do penhasco
e um ruído de entroar...
É um mar d'àgua a brotar
A vida no seu começo!...

MC

 

publicado por mcarvas às 15:15

Urro de estremecer

23.10.08


O sol já ia alto
quando um urro de estremecer
deixou tudo a temer...
até o chão deu um salto!

O que poderia ser
que urro tão forte soltara?
Outro igual não se vira!
Que estava para acontecer?

E o sol logo se escondeu
pondo tudo a tremer
tremer por não saber
porque o dia escureceu!...

Na serra, mesmo ali ao lado
fumo e fogo surgiu
e tudo dali fugiu;
A serra tinha acordado.

Cuspia p'ro céu fogo e fragas
e logo, um manto escuro e quente
que seguia p'ra ocidente
denunciou novas vagas.

Uma golfada de fogo escorreu
pelas escarpas da serra
engolindo até a terra
que de proteu escareceu.

MC

 

publicado por mcarvas às 19:03

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