Espaço

04.06.09


Numa lágrima caída
colhi a côr da dôr
pediu-me ela com fervor
que a não deixasse perdida.

Alheeia de seu fermento
pousando-a bem junto à pêle
para lavar fel e mel
desse seu chão lamacento.

Os dias foram passando
e a lágrima secando
secando com ela o pranto
lágrima do pensamento.

Contos em côro partiram
deixando um espaço vazio
é um lugar tão exíguo
onde não teme que o sigam...

Secou por dentro e por fora
no curto verão da vida
perdeu encejo na partida
não mais almeja a chegada!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:40

Trevas

04.06.09


Soltem, soltem os penhascos
abrindo as portas ao meio|
Neste ermo em permeio
urra na fossa o carrasco!...

Soltando brados, vocifera
dentes negros e afiados
vai moldando o cajado
que há-de sotar tal fera.

É neste chão putrido
que as osgas somem no pó
não há termo que de dó
some-se em vida perdido!

Que os negros trapos do dia
caçem e soltem as trevas
soêm tambores de guerra
consumidos na fadiga.

Pasmem-se, infios e ínfias
ao desfilarem nas trevas
que constrem novas heras
sob o jugo da quimera.

Que os cantos acordem todos
primeiro os mais sombrios
trazendo consigo testigos
e venham prenhes de castigos!

Que esses do desgarrado
soltem e atiçem os cães
para que não voltem sãos
venha, venha por fim o degrêdo!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:40

Festa d'eleição

04.06.09


Cesta de verga à cabeça
pela mão leva um petiz
saltitando vai feliz
no peito, medra a esperança.

Tanto botão a espreitar
no seio daquela cesta
leva flores para a festa
que está quase a começar!

É uma asáfama no largo
junto à capela maior
alva, que é um primor
no dia do redentor.

O sino então parado
sente o badalo a zurzir
a passarada a fugir
só para no meio do prado.

Já o sol tinha acordado
quando a fanfarra chegou
e logo o bombo soou
na calçada de empedrado.

Rua acima, rua abaixo
anda o mordomo ligeiro
este ano o Zé gaiteiro
tem de soltar mais um facho.

A criançada atrevida
vai puxando o pêlo à burra
que leva no lombo verdura
com ar de cumprometida.

Com os olhos ainda inchados
passa a Alice a remoer
ainda lhe deve doer
perder a noite de fados.

Cantadeira d'eleição
perdeu-se nos copos com o Zé
não mais se segurou de pé
foi uma complicação!...

O Zé um pouco atrevido
com os copos é bem mais
sem tempo p'ra soltar um ai
mete-lhe a mão no vestido.

Logo saltou confusão
ao se sentir apalpada
pegou-se tudo à paulada
no Zé estendeu a mão.

O tasqueiro não gostou
de vêr o negócio estragado
correu tudo à mocada
até a Alice larpou.

Toca a banda no coreto
e o madraço abre um olho
num banco cheio de folhos
estendeu o seu tapete.

A Rosa, moça prendada
que todo o largo enfeitou
ao vêr o que o madraço estragou
ferra-lhe grande estalada.

Homem de fala pausada
ao vêr sua filha danada
sem soltar uma só fala
assenta-lhe forte paulada.

No largo engalanado
tudo alinhado prás festas
foi porrada até ás tantas
ninguém foi posto de lado.

Gaitas com foles inchados
bombos e cacos de gesso
tudo serviu p'ra arremesso
no fim cabeças rachadas.

Festa de se tirar o chapeu
não há no lugar outra igual
ninguém levou por mal
tudo que nada perdeu!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:38

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