Jornada

30.09.09


Subtíl era o momento
que tão breve se esfumou
quan n^gro o camafeu
que irrompeu do relento!...

Baba, soltava às postas
qual algazarra no inferno
que tomou vales e ermos
descarnando as encostas.

Como castigo dos céus
a chuva jorrou a rodos
que elevou côdeas e lodos
para alvitrar tanto réu!

Bem longe surgiu o sinal
de volumosa tormenta
que rasga e arrebenta
rumo ao juízo final.

Que venham então, levem tudo
de putrido e desenganos
consuma mêses e anos
nesse ar servo e mudo...

Caspem-se as unhas dos pés
na passada descontínua
e essa vida de míngua
lavada de lez a lez!

Venha esse sinal,
venha por fim afinal.

MC

 

música: j
publicado por mcarvas às 12:08

Festa d'eleição

04.06.09


Cesta de verga à cabeça
pela mão leva um petiz
saltitando vai feliz
no peito, medra a esperança.

Tanto botão a espreitar
no seio daquela cesta
leva flores para a festa
que está quase a começar!

É uma asáfama no largo
junto à capela maior
alva, que é um primor
no dia do redentor.

O sino então parado
sente o badalo a zurzir
a passarada a fugir
só para no meio do prado.

Já o sol tinha acordado
quando a fanfarra chegou
e logo o bombo soou
na calçada de empedrado.

Rua acima, rua abaixo
anda o mordomo ligeiro
este ano o Zé gaiteiro
tem de soltar mais um facho.

A criançada atrevida
vai puxando o pêlo à burra
que leva no lombo verdura
com ar de cumprometida.

Com os olhos ainda inchados
passa a Alice a remoer
ainda lhe deve doer
perder a noite de fados.

Cantadeira d'eleição
perdeu-se nos copos com o Zé
não mais se segurou de pé
foi uma complicação!...

O Zé um pouco atrevido
com os copos é bem mais
sem tempo p'ra soltar um ai
mete-lhe a mão no vestido.

Logo saltou confusão
ao se sentir apalpada
pegou-se tudo à paulada
no Zé estendeu a mão.

O tasqueiro não gostou
de vêr o negócio estragado
correu tudo à mocada
até a Alice larpou.

Toca a banda no coreto
e o madraço abre um olho
num banco cheio de folhos
estendeu o seu tapete.

A Rosa, moça prendada
que todo o largo enfeitou
ao vêr o que o madraço estragou
ferra-lhe grande estalada.

Homem de fala pausada
ao vêr sua filha danada
sem soltar uma só fala
assenta-lhe forte paulada.

No largo engalanado
tudo alinhado prás festas
foi porrada até ás tantas
ninguém foi posto de lado.

Gaitas com foles inchados
bombos e cacos de gesso
tudo serviu p'ra arremesso
no fim cabeças rachadas.

Festa de se tirar o chapeu
não há no lugar outra igual
ninguém levou por mal
tudo que nada perdeu!...

MC

 

publicado por mcarvas às 19:38

Começo

19.05.09


Que tombe então fulminado
o serviçal da mentira
o permíscuo som da lira
por sua corda esganado!

Que sinta o sabor da derrota
ao vêr a porta trancada
por onde só passa a verdade
não mais su língua afiada.

Pintem os céus de vermelho
para honrar esse dia
que o plácido fulgor da lira
seja serrado n'um celho.

Joguem-no pois ao precipício
que seja tão vasto, de mais
para que não volta mais
a dar começo ao início!...

MC

 

publicado por mcarvas às 17:52

Fonte das sete bicas

19.05.09


Corre salta em alvoroço
deixando a saia rodar
roda, roda sem parar
roda singela sem esforço...

Na fonte das sete bicas
moças pousam o canêco
rodopiam no tamanco
sobre a calçada com socas!

Claras, escuras ou floridas
mas todas com saias de rendas
pequena que esconde a fenda
tem grande ância na partida.

Em seus decotes, ai as prendas
que a pele alva faz luzir
de coradas vão fugir
são todas moças prendadas!...

A fonte tem seus pecados
e outros tantos que ali deixam
pois com a mão que semeiam
também n'ela lavam o fado.

Com o canêco à cabeça
ladina, sobe a calçada
passa a rua em revoada
desde a fonte até à praça.

Ao passar junto à capela
leva a mão ao peito e reza
faz ao senhor a promessa
que expõe em sua preçe!

Sorri quando ali passa
com um ar envergonhado
e ao sorrir expõe a graça
deixando no ar sua traça...

Moça de folhos rendados
que força tens em teu traço
com tua trança e um laço
com duas pontas douradas.

Dás à praça tanta graça
que já não tem dia que passe
por mais que a hora se atrase
que não anceie teu abraço.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:51

Palavrinha

10.02.09


Tive-a pura nos lábios
ignorante dos sábios
fartos de tanto saber.
E as mãos do desalento
sentia ao longo do tempo
dentro de mim a crescer.

Proveia com alegria
envolto em sua magia
na doce, mais doque doce
vinda do mor adivinho
que punha o sapatinho
como se brinquedo fosse.

Sofria pela ausência
e por falta de evidência
peguei nela esquecido
que a palavrinha afinal
porque tudo, tudo vale
nunca perdeu o sentido!...

MC

 

publicado por mcarvas às 14:38

Pingente

05.01.09


Um fiosinho de chuva
que não chegou ao chão
acorda gentil paixão
ao vêr tão doce escultura

Que suave está o campo
de um linho tão macio
mesmo fazendo frio
a neve preenche o vazio.

Quam limpido está o dia
e, o pingente ali formado
com um ar imaculado
anda à solta a magia.

O frio que endurece os corpos
suaviza também a memória
enchendo o dia de glória
que desperta os sentidos.

Paira no ar uma leveza
que cobre todo o campo
de um branco tão sereno
explendeor da natureza.

MC

 

publicado por mcarvas às 23:29

Palavras vâs

10.11.08


As honrarias da pátria
versadas entre senhores
e também alguns doutores
mas negam-se aos esturpores
que a guerra por eles faria.

Para isso têm a plebe
que juntos eles escomungam
para fazer o que eles mandam
qualquer acto lhes serve.

Mas se a pátria viram tomada
fogem todos sem temor
tentando por tudo esconder
os actos de suas jornadas.

São todos estes senhores
que de élite se apelidam
em todos os cantos vasculham
as sombras de seus credores.

Quando sobem ao poder
doutos já julgam sêr
engendram já a antevêr
leis a seu belo prazer.

O ditado já o dizia
o povo tem memória curta
fala, mas muito mal escuta
senão não os elegia.

São estes fazedores de sonhos
que usam a palavra como arma
mentindo para manterem a trama
devassam, montam patranhas.

Para subirem um degrau
que os conduza à cadeira
até chafurdam na feira...
por eles nada está mau.

O povo não tem saber
e muito pouco querer
senão, como voltam a meter
esses senhores no poder?

MC

 

publicado por mcarvas às 19:16

Urro de estremecer

23.10.08


O sol já ia alto
quando um urro de estremecer
deixou tudo a temer...
até o chão deu um salto!

O que poderia ser
que urro tão forte soltara?
Outro igual não se vira!
Que estava para acontecer?

E o sol logo se escondeu
pondo tudo a tremer
tremer por não saber
porque o dia escureceu!...

Na serra, mesmo ali ao lado
fumo e fogo surgiu
e tudo dali fugiu;
A serra tinha acordado.

Cuspia p'ro céu fogo e fragas
e logo, um manto escuro e quente
que seguia p'ra ocidente
denunciou novas vagas.

Uma golfada de fogo escorreu
pelas escarpas da serra
engolindo até a terra
que de proteu escareceu.

MC

 

publicado por mcarvas às 19:03

Festa e romaria

16.10.08


Este condado foi um dia
forte porto de partida
sempre que a armada chegava
era festa e romaria.

Das rotas do brasil
trasendo com ela a nobreza
pejada de pedras preciosas
expunham o ócio de perfil.

Das rotas de áfrica trasiam
joias, pratas, mantimentos
muitas gentes por lá ficavam
e pelo cabo das tormentas...

Mas logo também descobriram
a rota que os levou às índias
e de lá também trasiam
tudo que era especiarias.

Mas esse tempo d'àguas mil
a seu tempo viu perder
quando chegaram ao poder
os políticos de abril!...

Desbarataram o país
deixando à sua sorte
os que por lá tentavam a sorte.
Só ganhou com isso quem quis.

MC

 

publicado por mcarvas às 16:43

Na ponta de uma caneta

14.10.08


Em seu mundo á meia noite
ouvem-se vozes doridas
gritos de almas feridas
que o mais vil mortal não os sente.

São choros, são lamentos
transformados em castigos!
Açoites de um testigo
tempestades de tormentos.

Que põe no papel o poeta
para que toda a gente
saiba o que ele sente
por não atingir sua meta.

O poeta está louco!
Já o dizia o povo
lá está ele de novo
nem se sentia à pouco!...

A noite é como uma seta
sua alma uma pena
espelha sua vida terrena
na ponta de uma caneta.

MC

 

publicado por mcarvas às 17:40

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